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terça-feira, maio 25, 2004
Posted
9:06 AM
by André Melo
Bonito isso, né?
Ainda bem que ele deixou o portão aberto e pude sair sossegado, precisava esfriar a cabeça. O melhor a fazer seria arejar as idéias, dar uma volta por aí, passear um pouco.
Nem me pergunte como diabos isso tudo começou, fico nervoso só de lembrar. O tipo da coisa que a gente faz e depois se arrepende. No início era uma brincadeira boba, nada que merecesse ser levado muito a sério. Em vez de parar por aí, comecei a insistir e insistir sem saber que estava entrando na maior roubada. Ainda bem que vou passear.
Era um dia chuvoso, disso me lembro, o dia perfeito para ficar embaixo das cobertas. Porém, eu tinha que comprar comida. Não pra mim, a geladeira estava abarrotada, faltava comida para o Quincas, o meu cão. A seção de rações era bastante conhecida, quase todas variedades já tinham sido provadas. Provadas e reprovadas. Não por mim, o Quincas que não gostava de ração. O desgraçado preferia a nossa comida, arroz, feijão, macarrão... qualquer coisa, menos ração. Será que um dia farão uma ração canina para cães?
De repente, um trovão da tempestade explodiu perto de mim. Um chamado dos Deuses, um clamor dos céus, um pacote prateado me chamou atenção. Com as mãos ainda trêmulas e o olhar estupefato, segurei a embalagem com as duas mãos. Era uma ração nova, uma ração fantástica!
Coisa fina daquele jeito, só podia ser importada. Quase não acreditei quando vi aquele nome repleto de consoantes. Comprei no ato.
Chegando em casa, tratei logo de abrir o pacote e pôr o conteúdo fantástico no prato do Quincas. Ele veio todo animado enquanto eu conferia o preço na nota fiscal. A ração fantástica também tinha um preço fantástico, imediatamente senti um gosto salgado na boca. Por sorte o Quincas também tinha gostado da ração, senão teria que comprá-la sempre. Além do mais... como é? Ele não gostou? Desgraçado!
Cachorro imprestável, deu uma cheirada e saiu de fininho. Não demorou e ele estava todo animado me vendo jantando meu arroz com feijão. A ração fantástica ele não queria, mas qualquer coisa que estivesse no meu prato ele aceitava. Podia ser qualquer angu que ele topava, tudo menos comida de cachorro. Ao menos que...
Uma idéia súbita me veio a mente. Imediatamente peguei a ração abandonada e pus no meu prato. Ele me olhava sem entender, mesmo assim prossegui meu plano. Com uma colher na pia, raspei o pratinho do cachorro e comecei a comer a ração. Era duro e seco, mesmo assim tentava aparentar estar gostando para despertar o cão. Imediatamente ele se mostrou interessado.
Eu estava determinado a fazer ele se interessar pela ração. É claro que não esperava completar a missão em apenas uma tentativa. Na refeição seguinte repeti a dose. O gosto não era nada atraente, mas para quem já passou com muito macarrão instantâneo não é nada do outro mundo. Para completar o treinamento, resolvi fazer ele perder o interesse em comida de gente, isto é, servindo arroz e feijão no seu prato. As coisas seriam assim agora, comida de gente no prato dele e ração canina no meu. Tudo pela educação.
Os dias passavam devagar em casa. Aos poucos o novo cardápio foi se tornando rotina. Nos dias pares, ração sabor carne, nos impares, vegetais. Nos fins de semana, variava um pouco, me permitia um biscoitinho canino. No começo comia todos de uma vez, depois comecei a guardá-los de baixo da cama.
Quanto ao Quincas, ele passou a encarar a ração com outros olhos, mas isso durou pouco. Aos poucos também foi se acostumando com comida de gente. Sem o entusiasmo de antes, é verdade, mas foi se habituando ao arroz e feijão. De vez em quando, ele fazia algo especial, uma lasanha, uma pizza, porém, geralmente ficava a base de arroz e feijão.
Passou um tempo e achei que a experiência podia ser dada como encerrada. Os objetivos não tinham sido bem alcançados, de qualquer forma a experiência pode servir para trabalhos futuros, rações novas ou algo do tipo. Quando fui desfazer a troca, os atritos voltaram a aparecer. Ele não deixava que eu chegasse perto da sua comida, começou a gritar comigo.
Insistia e ele era cada vez menos gentil. Terminou me dando um tapa no traseiro. O sangue subiu a cabeça e comecei a latir alto pra mostrar quem é que manda. Ele respondeu com outro tapa, desta vez no fuço. A briga acabou e fui brabo pra caminha. Tentava lembrar como as coisas tinham chego a esse ponto, mas estava nervoso demais para pensar. As coisas não iam ficar assim, vou destruir o sapato novo dele em represália.
— André, André? – o Quincas começou a me chamar. – Você quer passear, André? Vamos passear? – disse balançando a coleira.
Imediatamente toda raiva passou e corri aos braços do Quincas. Ele me prendeu a coleira enquanto eu latia de entusiasmo. Comigo no seu colo, ele se dirigiu até o portão, todas as mágoas pareceram acabar naquele instante. Final feliz de cachorro é assim mesmo, o portão se abre, cão e dono vão passear. Bonito isso, né?
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terça-feira, maio 11, 2004
Posted
10:03 AM
by André Melo
Dramas informais
De frente para o espelho, Raquel se penteava com uma certa calma sinistra, o jeito que as mulheres ficam antes de fazer algo errado. Ela estava se preparando para quando o Jorge, seu marido, chegasse. Estava com tudo preparado, tinha arrumado a cesta. O que ia falar já tinha treinado direitinho, faltava só ele chegar.
Não sabia ao certo como Jorge reagiria, talvez entendesse seus motivos e lhe desse razão. Ou também podia se sentir traído e querer matá-la. É claro que ele não faria uma coisa dessas, era um sujeito calmo e pacato, mas por via das dúvidas ela esvaziou o revolver dentro da gaveta, lembrança da época de fartura.
Sim, naqueles tempos tudo era mais fácil, ele trabalhava na fábrica e ela tomava conta do lar. Não que não quisesse trabalhar, tinha sido uma exigência dele antes do casamento. “Mulher minha não fica sofrendo em emprego nenhum!”. No começo ela achou muito cavalheiro, o marido não querer a mulher se desgaste. Só depois de casado ela viu que o desgaste de casa lhe era suficiente. Apesar dos pesares, eles viviam bem. Ele não ganhava nenhuma fortuna, mesmo assim dava para os dois viverem com dignidade.
Isso foi até algum tempo atrás, quando o desgraçado do Factor Standart chegou à fábrica. Esse foi o nome mais xingado na casa desde então, o desgraçado do Factor.
Não, ele não era um senhor com nome diferente, esse era o nome de batismo da máquina que roubou seu posto de trabalho. Uma geringonça de ferro que fazia o mesmo serviço dele, com a diferença que não parava pro cafezinho nem levava o filho pra vacinar. Uma desumanidade, pode acreditar, na vida deles tudo mudou.
Caindo na realidade, ele não deixou a peteca cair. Pôs o currículo debaixo do braço e bateu de porta em porta. Mas chegando lá quase caiu pra trás, outra pessoa já tinha chegado lá antes: Factor Standart, o diabo da máquina que não toma cafezinho nem se importa se o filho pegar sarampo. Finalmente, depois de muito tentar, Jorge percebeu que não existe mais espaço para ele nas fábricas, os robôs desalmados tomaram conta de tudo.
Só isso por si só já seria um bom motivo para Raquel pular do barco, mas o pior veio depois, quando ele descobriu um novo trabalho. Se não tinha mais vagas nas fábricas e firmas, ele pensou que o ideal era um cargo público. Infelizmente ele não foi o único a ter essa idéia, prestou uns concursos sem qualquer chance. Se na formalidade a coisa tava preta, ele passou para o outro lado. Fazendo alguns contatos, Jorge conseguiu entrar no ramo de vendas.
— Pagando 1 real, é 3 isqueiro. Eu disse 3 isqueiro.
Tudo bem que não é nada muito fabuloso. É claro que ele merecia coisa melhor, de qualquer forma é o que ajuda a manter a família.
— 3 isqueiro, paga 1 real. Eu disse 3 isqueiro é só 1 real.
Parece um serviço simples, mas não é. Com o tempo ele aprendeu as estratégias para vender. Uma delas é falar a frase desse jeito, cheio de erros de concordância. Quanto maiores os erros, maiores os lucros. Ou melhor, quanto maior os erro, maiores o lucro.
— Leva 3 isqueiro, paga 1 real. É 3 isqueiro por 1 real.
Pra vocês pode até parecer engraçado, mas para a Raquel não tinha graça nenhuma. Seu casamento tinha se transformado num sofrimento, ainda mais depois quando notou pequenas seqüelas nele.
— Jorge, precisamos conversar – foi logo abrindo o jogo quando o marido chegou.
— Promoção: 3 isqueiro só 1 real. Eu disse 3 isqueiros só...
— Eu estou falando sério, Jorge...
— Com apenas 1 real você leva 3 isqueiro.
Não sei como explicar, mas parece que de tanto repetir essa frase ele só conseguia falar isso desde então. Era um tal de “3 isqueiro, 1 real” pra lá, “paga 1 real leva 3 isqueiros” pra cá, isso era o dia todo.
— Tomei uma decisão séria ontem à noite.
— Você paga 1 real e leva 3 isqueiro.
— Nessa situação que a gente está passando, me vejo forçada a fazer isso. Sei que você não vai gostar, mas não tenho outra opção.
— Por apenas 1 real, você leva pra casa 3 isqueiro.
Vendo que ele continuava com o papo dos 3 isqueiros, ele decidiu mostrar pra ele agora. Respirou fundo três vezes para tomar coragem, tirou a cestinha de cima da mesa e foi logo anunciando:
— Leva 4 cocada, paga 1 real. Eu disse 4 cocada paga só 1 real!
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terça-feira, maio 04, 2004
Posted
2:17 PM
by André Melo
Ajudando um amigo em apuros
Delegacia, êta lugarzinho sinistro, uma espécie de circo dos horrores. Policiais durões, traficantes barras-pesada, bandidos perigosos, até aí tudo bem, o que mais assustada é aquele entra e sai de advogados. Graças a Deus eu nunca precisei botar meus pés num ambiente desses, seja como malfeitor ou como vítima, porém, nesta sexta-feira essa história iria mudar.
Calma lá, não estou dizendo que a minha vida acabou recheando o suplemento policial dos jornais populares, é que tive que ir até a delegacia para tentar livrar a cara de um amigo metido numa enrascada. Sabe como é, amigos são uma coisa rara hoje me dia, agora se a polícia começar a tirá-los de circulação, poxa vida, daí que a coisa fica preta de uma vez.
Sendo assim, reservei a manhã de sexta para levar uma conversa com o delegado. Conversa séria, de homem pra homem. Estava na hora de ele pôr a mão na consciência e soltar o meu amigo Luiz Cláudio, mais conhecido como Lucci, mas que chamo simplesmente de Tim.
Bom homem? Claro que sim, um cara honesto, trabalhador, cidadão respeitável. Pelo menos era isso que diria quando o autoridade me perguntasse. Não estou dizendo que ele anda de cabelo repartido no meio e bíblia de baixo do braço, mesmo assim não merecia ver o sol nascer quadrado. Não sou do tipo que deixa os amigos na mão uma hora dessas, mas confesso que são poucas pessoas que me fariam botar os pés numa delegacia. Mas o que poderia dizer se o Tim já me quebrou tantos galhos, desde que nos conhecemos até hoje deve ter sido uma floresta inteira.
— O delegado? – perguntei para um sujeito no balcão.
— Sobre o que seria?
— Falei com ele pelo telefone, vim falar sobre...
— No fim do corredor – me interrompeu apontando a direção.
“Delegado Maranhão”, era o que dizia a placa grudada na porta. Batia três vezes antes de entrar. Logo que entrei me identifiquei como o que tinha falado com ele pelo telefone, ele me convidou a se sentar. Enquanto me ajeitava na poltrona, ele circulando de um lado ao outro. O que mais me chamava atenção eram os óculos Ray-Ban, estilo anos 70, que ele usava mesmo dentro da sala. A conversa fluía e assim que tive a oportunidade emendei a frase.
— O Luiz Cláudio? Ele é um cara honesto, trabalhador, cidadão respeitável!
— Ahn é? – disse balançando a cabeça. – Esses são os piores...
— Estou falando sério, é claro que ele não deve estar metido nessa história. Onde já se viu, o Luiz não se envolveria nesse esquema de agiotagem.
— Por que você acha isso?
— Ele tem emprego fixo e trabalha duro. Além disso, estuda de noite, faz faculdade. É torcedor do Atlético Paranaense, é verdade, mas também ninguém é perfeito. Fora isso ele é um cara direito.
— Entendo... – disse antes de silenciar alguns instantes. – Sabe, isso que você está dizendo condiz com a realidade. O Luiz Cláudio tem emprego fixo, estuda de noite, em resumo, é um cara direito.
— Exatamente, senhor, é um cara honesto. Eu, por exemplo, estou sem emprego e vivo com problemas financeiros, quer dizer, ele é um cara mais direito que eu!
— Interessante... – disse se sentando a minha frente. – Engraçado você ter dito isso. “Engraçado?”, pensei com os meus botões.
— Logo no início do caso, nós percebemos que ele não devia estar envolvido nesse esquema de agiotagem – começou a explicar. – Estava parecendo é que ele estava tentando
proteger alguém, um amigo, por exemplo. Você é amigo dele, não é?
— Conhecido – engoli a seco. – Sou só um conhecido, conheço mais assim de vista.
— Você disse que está desempregado, sem ocupação...
— Desempregado? Estou no momento analisando as propostas...
— Você tem o costume de pedir dinheiro emprestado para terceiros?
— Dinheiro emprestado? É claro que não! – disse enfático.
— Tem certeza?
— Eu nunca pedi dinheiro pra agiotas! Não a menos que precisasse...
— E pagava o que devia?
— É claro que sim, pagava como tudo planejado!
— Reconhece a sua letra nesses cheques? – perguntou me mostrando.
— Sim, foi o pagamento que fiz.
— Mas esses cheques são do Luiz Cláudio!
— É que foi uma ajuda que ele me fez...
— Não foi isso que ele nos disse.
— É que ele ainda não sabe.
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