o salamandra

terça-feira, março 30, 2004


Sessão de cinema para corajosos

“Polêmico” e “bombástico”, essas eram as palavras mais citadas pelos jornais que cobriam a estréia do filme. Tanto falatório não era pra menos, poucas vezes um filme foi tão comentado e badalado. Por aqui, todos estavam ansiosos para poder assistir o que havia de tão terrível nessa história, mas os estúdios alertavam que o filme não podia ser visto por todo mundo, ele era muito pesado.

Tal aviso tinha lá suas razões, desde que estreou nos EUA eram comuns as notícias de morte em plena sessão, o governo até chegou a proibir sua exibição. No começo, não se entendia o porquê daquelas mortes. Se ainda fosse igual a esse filme do Mel Gibson daria para entender. Ouvi dizer até que “A paixão de Jesus Cristo” foi banido dentro de churrascarias e rodízios de carne. Mas esse filme de agora não tinha nada de muito forte, cenas de tortura não tinha, crucificação nem pensar. Então o que poderia estar causando aquele alvoroço todo?

A resposta só veio mais tarde, quando a equipe responsável que investigava as mortes encontrou uma coisa em comum às vítimas: todas eram românticas. Descoberta a causa, o governo liberou a exibição, mas foi o primeiro filme “proibido para românticos e demais pessoas sensíveis”. Com o aval das autoridades, a película voltou a faturar caminhões de dinheiro. Mortes, como não podiam deixar de ser, ocorriam vez ou outra, mas não podia dizer que o governo não tinha avisado.

Com uma divulgação dessas, a estréia prometia ser o maior acontecimento dos últimos tempos. O público nem ligava para o título, “The most sad history” que aqui no Brasil foi traduzido para “A ilha dos corações despedaçados”.

No dia da estréia, o telefone tocou, era o editor do Espaço 2, aqui no Jornal do Estado. Fazendo um monte de rodeios e dando uma série de desculpas esfarrapadas, ele pediu que eu fosse ver o filme em seu lugar. Obviamente, ele estava com medo de se chocar e ter um piri-pac, coisa de medroso. Por sorte, ele se lembrou do amigo com fama de durão e cara de malvado. Um cara destemido, do tipo que não aperta o botão do elevador porque avisa o andar na base do grito. Sim, ele se lembrou de mim.

A noite foi das mais movimentadas, seguranças tentavam manter a ordem, mas o pânico já estava instaurado. O filme era tão chocante que mesmo ainda na fila as pessoas caiam desmaiadas. Essas deviam ser as mais românticas. Na sala de exibição, as luzes começaram a se apagar e mais um punhado de românticos caíram. O filme ia começar.

No dia seguinte, tive que ir ao jornal para entregar a resenha que prometi. Quando cheguei, as pessoas pareciam ansiosas para ouvir o que tinha para contar.

— E aí, André, conseguiu sobreviver? – perguntou o primeiro.

— Nada demais... – respondi.

— Perguntei porque só na noite de estréia os hospitais ficaram lotados!

— Sendo que boa parte empacotou antes dos trailers! – acrescentou o outro.

— Detesto desapontá-los, mas confesso que não vi nada que pudesse impressionar.

— Não!? Que quer dizer?

— Não. Eu não vi nada demais.

Eles insistiram mais um pouco, mas logo viram que não tinha nada interessante para contar. Cheguei até a ouvir um “esse cara deve ser durão mesmo” solto no ar, mas confesso que nem sei se realmente ouvi ou se foi fruto da minha imaginação. O silêncio, então, se instaurou. Só sobrou o meu editor, que já me conhece tempo suficiente para saber que não chamo o elevador a base do berro.

— Quer dizer então que não viu nada demais nesse filme? – perguntou calmamente.

— Não vi nada demais.

Ele ficou mudo e eu resolvi abrir o jogo.

— Eu não vi nada demais porque fiquei a sessão toda de olhos fechados.

— Ah sim, agora faz sentido! – disse com ironia.

— Mas espere um pouco – comecei a explicar a lógica do meu raciocínio. – Não que eu seja romântico ou coisa do gênero, mas no meio daquele tumulto todo, vai que eu sou confundido e acabo...



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terça-feira, março 23, 2004


Depois falam que palhaço é engraçado...

— Palhaços. Nunca vi tantos palhaços na cidade como agora.

— Como é?

— Esses palhaços espalhados no trânsito!

— Pessoas que dirigem mal?

— Não, palhaços mesmo. É só a gente parar no semáforo que eles aparecem!

— Semáforos? Ah sim, fala do pessoal fazendo malabarismos...

— Não só nos semáforos, esses caras estão em toda parte! Dirigindo carros, fazendo barbeiragem... Esses dias aconteceu uma coisa muito estranha.

— O que houve?

— Apareceram uns caras fazendo malabarismos com bastões pegando fogo.

— Eles estão se especializando cada vez mais...

— Mas não foi só isso. Depois deles mexerem com aquelas coisas, eles entraram num carro que estava parado.

— Um carro que estava parado no sinaleiro?

— O carro estava lá parado. Eles entraram, deram a ignição e começaram a fazer altas barbeiragens...

— Eles entraram num carro que... como é que pode?!

— Quando finalmente largaram o carro todo amassado, os palhaços resolveram sair. Só que em vez de saírem os quatro que tinham entrado, saiu uma porção deles! Um atrás do outro, deve ter saído uns 20 de dentro do carro.

— Uns 20!?

— Uns 20 ou até mais! Ao todo devem ter saído uns 25 palhaços de dentro do carro!

— 25 palhaços de dentro do carro? Peraí, isso tá parecendo mais coisa de circo, aqueles shows...

— Não, foi de verdade!

— Claro que não, isso aí foi armação, tudo ensaiado...

— Como assim?

— Palhaços saindo de dentro do carro. Eles ficam saindo por um lado e entrando pelo outro, é um velho truque de circo.

— Será?

— Aquilo ali não aconteceu de verdade, devia ser um show de palhaços. Mas elas fazem isso no circo, como você foi parar num?

— Bem, o carro da minha esposa quebrou e tive que levar as crianças pra aula.

— Sim, mas por que foi ao circo?

— Como não sabia o caminho pro colégio, pedi para eles me indicarem o lugar. Fui parar lá por causa deles.

— Então foi isso, eles fizeram você ir pro circo em vez do colégio.

— Poxa, bem que eu estava achando estranho um colégio com picadeiro!

— O que me admira é você não ter percebido que aquilo era um circo e não um colégio...

— Essas crianças me pagam...

— Deixe pra lá, eles só queriam conhecer o circo...

— Mas isso não foi tudo. Depois dos palhaços fazem as barbeiragens com o carro, eles saíram e apareceu um trator!

— Trator?

— Um trator gigante! Ele veio com tudo e passou por cima! Esmagou o carro todinho!

— Viu só, é bem coisa de circo. Essa história de um trator passar por cima e destruir o carro...

— É mesmo? Então eu estava num circo mesmo?

— Sim, pode acreditar, era algum show desses novos. Palhaços fazendo barbeiragens e trator passando por cima do carro...

— Humm... agora faz sentido...

— Mesmo sem saber você estava dentro de um circo.

— Humm... mas ainda tem uma coisa que não consigo entender.

— Estou falando, aquilo foi tudo ensaiado. Pegar um trator e passar por cima de um automóvel, aquilo tudo foi um show!

— Não é isso, é que ainda não entendi porque...

— Não entendeu o quê? Você devia estar dentro de um circo!

— Ainda não entendi porque diabos eles tinham logo que usar o meu carro!



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terça-feira, março 16, 2004


"É melhor pedir do que roubar"

“Um apostador do Espírito Santo acertou as seis dezenas da Mega Sena e levou um prêmio de R$ 6.409.645,53” – lia em voz alta sentado no banco de praça. – E a gente fica aqui brigando por qualquer trocado... sortudo desgraçado... – fechou o jornal balbuciando alguns resmungos.

Acho que foi bem nessa hora que um rapaz entregou um daqueles papeizinhos. Papéis que falo são aqueles que estão bem em moda, pedindo contribuições, não importa a quantia, para a compra de alimentos, remédios, perna-mecânica e outros blábláblá com a graça de Deus. O senhor sentado estranhou aquilo tudo, já estava acostumado em receber esse tipo de pedido dentro dos ônibus, mas nos bancos de praça era novidade.

— O que é isso?

— Já terminou de ler o papel?

— Não, mas já sei do que se trata – respondeu com antipatia.

— Que bom – disse o rapaz sorrindo e estendendo a mão como quem recebe uma mesada.

— Nada disso. Dê só uma olhada no que está escrito naquela parede – alertou apontando para mensagem “Esmola não dá futuro” que pintaram dias atrás.

— Como é?

— Está ali, não sabe ler? Lá está escrito “Esmola não dá futuro”.

— Interessante... mas um trocadinho o senhor deve ter... – estendeu a mão com um sorriso ainda maior.

— Meu rapaz, não vou lhe dar “um trocadinho” porque esmola não dá futuro!

— Futuro? O senhor não está entendendo... Não estou querendo pro futuro, eu quero pra agora mesmo!

Depois dessa, o senhor sentado no banco nem argumentou mais nada, só balançou a cabeça negativamente. O rapaz não se deu por vencido.

— Não vai me ajudar? Então leia o que está escrito bem aqui – apontou com o dedo.

“É melhor pedir do que roubar”.

— Isso mesmo, “É melhor pedir do que roubar”, entendeu agora?

— Sim, mas o que eu tenho a ver com isso?

— “É melhor pedir do que roubar”. Eu estou aqui pedindo uma contribuição na maior educação, se não der certo, vou ter que partir pra o plano B.

— Plano B? – perguntou confuso.

— Sim, plano B. Pedir é melhor que roubar, mas quando não dá certo pedindo...

— Peraí, peraí... não me diga que você vai...

— Não vai me restar outra opção.

— Mas não foi você mesmo quem disse que “É melhor pedir do que roubar”?

— Certo, mas também é melhor roubar do que agredir.

— Como é?

— E é melhor agredir do que surrar.

— Não me diga que está pensando em me...

— Também é melhor surrar do que furar, não é verdade?

— Desse jeito vou ter que chamar a polícia – defendeu-se assustado.

— Daí é melhor furar do que...

— Tá bom, tá bom – interrompeu com uma voz trêmula. – Não precisa dizer mais nada, eu vou contribuir! Não é muita coisa porque estamos no meio de mês...

— Quanto a isso nem precisa se preocupar, cada um contribui de acordo com a sua consciência.

— Eu também saí de casa desprevenido, só estava com dinheiro pra comprar um jornal... Se não fosse isso, até poderia contribuir com mais.

— Não se preocupe, cada um ajuda com o que achar melhor. Tudo depende da consciência de cada um.

— Está aqui moço, é tudo que tenho – se desculpou esvaziando os bolsos com duas notas de R$ 1,00 amassadas e um punhado de moedinhas.

— R$ 2,00? Só R$ 2,00?

— Me pegou desprevenido...

— Onde foi que conseguiu uma consciência dessas? Na loja R$ 1,99?


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domingo, março 14, 2004


Diferenças culturais
André Luiz procura explicação

Vou ser rápido. Um amigo esteve visitando um país árabe e disse não estranhar tanto quanto imaginava. Sua única dúvida ocorreu quando foi ao banheiro e deu de cara com uma estranha placa. Como não entendo muito de assuntos muçulmanos, peço que você me ajudem a entender o que a placa significa.

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"Senhor dos Anéis", que nada!
senhor Delegado Maranhão

Quem se importa com essas aventuras chatas do Froudo, para quem não sabe, em 1983 fizeram o filme que inspirou o filme, este era Krull. Uma história fantástica, atores inspirados e muitos, eu disse MUITOS, efeitos especiais.

Para quem não viu, neste sábado passou esse clássico na TV. Se perdeu, amigo, detesto dizer, mas você se deu mal. Nem na locadora existe essa fantástica película.


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terça-feira, março 09, 2004


Galanteios de final trágico

Aquele carrão branco seguia devagarzinho de encontro à moça.

— Por gentileza, sabe me dizer onde fica a Rua Otávio Néridas? – perguntou esticando o pescoço para fora.

— Como disse?

— Otávio Néridas, estou procurando há um tempão...

— Poxa, me desculpe, mas não sou daqui...

— É de Santa Catarina?

— Não!? – estranhando a pergunta.

— Geralmente as mulheres bonitas da cidade vêm de lá.

— Que é isso... – disse encabulada.

— Então do Rio Grande do Sul, onde as mulheres são bonitas e de personalidade forte.

— Errou de novo, sou de Goiânia, conhece?

— Como não conheceria se toda minha família vem da lá!

Daí por diante as coisas tomaram o rumo de sempre, não demorou muito a conversa saiu da rua e ganhou uma mesa de bar, era mais uma das conquistas de Jorge Maurício e essa ele fez sem sequer um parente em Goiânia. Na manhã seguinte, os transeuntes se aglomeravam para ler os jornais pendurados nas bancas, em um deles as páginas policiais estampavam “MORTA A GOLPES DE FOICE! Mulher atacada com golpes no pescoço sangrou até morrer esperando atendimento médico”.

— Rua Otávio Néridas, conhece?

— Otávio Méribas... não conheço. Tem certeza que fica aqui?

— Olha, certeza certeza eu não tenho – confessou desligando o motor do carro. – Só estou na cidade há três semanas.

— E logo que emprego foi arranjar, hein...

— Ainda não estou acostumado a essas ruas, essas árvores. Isso sem falar em olhos azuis como os seus.

— ai... obrigada, são verdes – agradeceu com o rosto todo corado, quando isso acontecia ele sabia que já tinha meio caminho andado.

Era só questão de tempo, em breve se tornaria mais uma na lista de Jorge Maurício. No dia seguinte, os jornais exibiam uma foto de embrulhar o estômago e letras garrafais explicavam tudo: “PUNHALADA PELAS COSTAS! Homem despacha amante que agoniza sem socorro”.

— Otávio o quê?

— Néridas, Rua Otávio Néridas – enfatizou puxando o feio de mão e estacionando o carro.

— Olha, moço, nunca ouvi falar. E olha que sempre morei aqui.

— Sempre morou aqui? – fingindo cara de surpreso. – Isso não pode ser, eu passei a infância no bairro e nunca te vi!

— Não, todo mundo me conhece pelas redondezas...

— E olhe que não me esqueceria de alguém como você.

— Como assim?

— E dá para se esquecer de uma morena de cachinhos como você?

— Ai, moço... – disse encabulado e ajeitando os cabelos.

Mais uma partida ganha, Jorge Maurício não perdia uma. O resultado disso era mais uma manchete no jornal: “MORTA COM TRÊS BALAÇOS NO PEITO! Acerto de contas termina com três disparos a queima-roupa. Vítima ainda rastejou duas quadras sem que nenhuma ambulância viesse”.

Chamado às pressas, Jorge Maurício entrou na sala do chefe temendo seu emprego. Sentado em sua mesa, o patrão fumava com um ar nada amigável. Esperou o Jorge sentar e atirou os jornais policiais no seu colo e comunicou com rispidez:

— Sabe o que isso significa? Você está despedido!

Sem qualquer argumento, ele não tinha o que alegar. Jorge Maurício agora estava desempregado. É claro que ele não tinha matado ninguém, mas um motorista de ambulância que se preocupa mais com as moças da rua do que com os infelizes das páginas policiais não serve para muita coisa. Tomara que agora contratem alguém que chegue na hora certa e possa atender as emergências a tempo, até aquelas na Rua Otávio Néridas..


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terça-feira, março 02, 2004


A cara da minha sogra

Os primeiros pingos caiam ligeiros no pára-brisa do ônibus. Sem conseguir lugar para sentar, observava as nuvens carregadas invadirem o céu sem pedir licença. Se de manhã o sol que dava as cartas, o fim de tarde nos revelava algumas surpresas. Como estamos só no começo de março, deve ser o que chamam de “chuva de verão”, aqueles torós que ocorrem o ano todo.

Enquanto lá dentro as janelas são fechadas com pressa, na rua os primeiros guarda-chuvas são abertos em sincronia. Pelo menos os precavidos que lembravam de trazê-lo, aos outros resta as marquises. Enquanto o congestionamento das seis começa a se formar, o aguaceiro aumentava, deixando a paisagem ainda mais caótica.

Com o coletivo plantado no trânsito, procuro alguma coisa para distrair nesse meio tempo. Olhando ao redor não se via muita coisa divertida, apenas trabalhadores que tentavam voltar para casa depois de um dia de trabalha. Talvez seja por isso que ficar olhando o tumulto lá fora foi a coisa mais interessante a se fazer.

Na rua todos andavam apressadamente, as pessoas de guarda-chuva se molhavam e os sem se encharcavam. Os mais corajosos que enfrentavam o pé-d’água sem se cobrir faziam careta de frio. No chão, as primeiras poças se formavam tornando o percurso cheio de obstáculos. Ufa, ainda bem que estou aqui dentro. Vendo daquele jeito, o ônibus pareceu o lugar mais confortável que existia no mundo. Pelo menos pela bagatela de R$ 1,70.

Pois é, com o tempo daquele jeito ficava claro que lá dentro nós até que estávamos bem, mesmo com o ônibus lotado e o oxigênio de segunda mão. As ruas começavam a alagar e as calçadas um sabão. Não demorou muito o primeiro escorregão fez um sujeito apressado molhar o traseiro. Enquanto todos olhavam preocupados, achei uma pena não ter trazido a máquina fotográfica.

O congestionamento deu uma folga e conseguimos andar mais um pouco. Só um pouco, pois logo paramos em um sinaleiro. Na calçada, um grande buraco se escondia em forma de poça. Só deu para perceber depois que uma senhora encaixou o pé fazendo cara de nojo, deu pra sentir que molhou o joanete. Mal pude esperar para ver outra pessoa cair no truque da falsa poça.

Aquela viagem estava começando a ficar divertida. Escorregões, tropeços e quedas em meio ao chão molhado até que tinham graça, pelo menos quando é com os outros. De tempos em tempos o ônibus trocava o cenário, mas sempre acabava parando em dessas ruas congestionadas do centro. Em cada cenário, novos obstáculos que os pedestres tinham que enfrentar. De tão interessado que estava, a todo instante desembaçava o vidro da janela para ver melhor aquele espetáculo úmido.

Próximo a uma dessas esquinas, uma mulher carregada de compras voltava do supermercado. Deve ser das corajosas, fazer compras com um tempo daqueles ou então foi pega de surpresa com a chuva enquanto pesava um pacote da laranja em promoção. Coincidência ou não, foi ela que me tirou a maior gargalhada daquele dia, quando um carro daqueles apressadinhos passou em uma poça dando um banho na senhora. A graça não tinha sido o banho propriamente dito, é que quando o ônibus passou por ela percebi que era a cara da minha sogra.

Refeito das risadas, comecei a me preparar para descer, a viagem tinha então acabado. É uma pena ainda estar chovendo, aquela simples chuva de verão estava se prolongando demais. O ônibus abriu a porta e eu saltei imediatamente. Como era o trajeto de casa sabia onde se escondiam os maiores riscos. Dando a volta pelo canteiro, fiz um desvio para fugir de uma parte que sempre alaga. Voltando à calçada, fugi de uma daquelas pedras soltas que sempre jogam lama na canela. Dei uns pulos com cuidado evitando um escorregão. Atravessei a rua de olho nos carros e cheguei na frente de casa sem problema. Até que não tinha sido tão difícil, tinha até parado de chover.

Enquanto buscava o molho de chaves para abrir o portão, o som de uma buzina me chamou a atenção. Quando me viro, uma onda de lama vindo da poça pula da rua e me pega de frente, como num beijo melado. Refeito do susto, tento ver o fdp que me aprontou aquela. Com os óculos sujos não consigo ver muita coisa, apenas me chama atenção uma mulher rindo dentro do carro. A mulher me parece familiar, aquela mesma de instantes atrás. Aquela com a cara da minha sogra.


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