|
|
domingo, fevereiro 29, 2004
Posted
2:08 AM
by André Melo
Pra queimar a língua
André Sala
Logo eu que gosto de falar bem dos filmes franceses e curtia nouvelle vague nos reprises da cinemateca. Não me importo de entrar em filme-furada, o difícil é quando estamos acompanhando a nossa mãe.
As referências eram boas, filme francês de diretor sobrevivente da nouvelle vague (não era Godard!). Além disso, quatro "G" pontuvam a nota da Gazeta do Povo, a mesma nota de Adeus, Lênin, por exemplo. Um bom programa para sábado à noite.
Na animação, chamei minha mãe para ver (ou pelo menos tentar) Quem sabe?, de Jacques Rivette. Não gosto de falar mal de filmes ruins, mas esse era muito, MUITO ruim. Depois de 2h30 tentando ver graça naquela coisa (quando digo "coisa" entenda-se filme) resolvemos sair de fora.
Pena, eu que gosto de divulgar o cinema francês acabei botando minha mãe numa furada. Acho que ela não vai querer ver filmes de lá tão cedo. Acho que eu também.
Se você ainda é corajoso e vai encarar, por favor, conte depois que diabos acontece no final. Tem duelo ou não?
Comments:
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
Posted
5:58 PM
by André Melo
Folga carnavalesca
André Luiz justifica sua ausência injustificada
Estou curtindo o carnaval em Pontal do Paraná (PR). Sol, calor, mar, mulher, cerveja... estaria mentindo se tivesse que tem tudo isso, mas calor tem. Estou aqui assistindo aula de ictioplâcton, uma matéria optativa da faculdade. Isso mesmo, assistindo aula da faculdade durante o carnaval. Talvez por isso que alguns dizem que sofro das faculdades mentais.
O que é bom dura pouco, volto dia 26.
Comments:
terça-feira, fevereiro 17, 2004
Posted
9:46 AM
by André Melo
“Vestibular é coisa do passado!”
Era isso que dizia o panfleto que ela recebeu no centro da cidade, no exato local onde se erguei o campus da Unifis. Cansada de levar pau nos vestibulares da vida, aqueles dizeres lhe chamaram atenção imediatamente, tinha que conferir aquilo pessoalmente. Chegando lá, instalações novas e bem cuidadas, isso sem falar da placa dourada logo na entrada, “Unifis – Universidade de Fim de Semana”.
— Por gentileza – disse se dirigindo ao moço da secretaria. – Eu estava passando aí em frente quando recebi esse panfleto e gostaria...
— Gostaria de saber como funciona, certo? Pois então, é isso mesmo que você leu, aqui na Unifis vestibular é coisa do passado!
— Não precisa fazer vestibular para entrar?
— Vestibular? Não, isso é uma coisa muito antiga, não vale mais pros dias de hoje.
— Mas então como é, tipo “pagou-passou”, como nas outras por aí?
— Opa, opa, a coisa não é bem assim – respondeu ofendido. – a Unifis é uma universidade séria. A única instituição brasileira e receber o “Comprovante de Seriedade” emitido pela Union de los Estudios de Finales de Semana, de Assuncion.
— Que bom, isso me deixa mais tranqüila. Sendo assim, acho que vou tentar fazer o teste. Por falar nisso, se não tem vestibular como vocês avaliam?
— Boa pergunta, moça, muito boa pergunta. Nós aqui não fazemos vestibular por acharmos que é uma crueldade com as pessoas. Elas têm que acordar cedo, o stress antes das provas, têm que ficar lendo aqueles textos longos, responder as perguntas difíceis...
— Realmente... – falou se lembrando de todos vestibulares que fez a proeza de não passar.
— Isso sem falar das pegadinhas! “Qual a cor do cavalo branco de Napoleão? a) branco, b) preto, c) malhado, d) não era cavalo, era jumento e) n.d.a.”.
— Eu me lembro dessa...
— Pois então, isso tudo é uma crueldade. Ninguém é obrigado a entender de cavalos para estudar administração, não é verdade? Aqui na Unifis, o candidato só tem que fazer uma redação. Quer tentar? – disse entregando uma folha em branco. – O tema é livre, pode escrever sobre qualquer coisa.
— Poxa, mas agora agorinha? Desse jeito nem sei o que escrever...
— Vamos lá, você consegue! Escreva sobre qualquer coisa... suas férias, isso! Escreva sobre o que fez nas suas férias de fim de ano.
— Minhas férias... deixe eu tentar – pegou a folha e começou a escrever.
— Não precisa ter tanta pressa, o que vale é o conteúdo.
— Prontinho – entregou ofegante depois de cinco minutos.
— Vamos ver, vamos ver... “As minhas férias de fim de ano” – disse lendo em voz alta o título. – Gostei do título, achei bastante original, isso vai contar pontos pra você.
— Oba! – gritou levantando os braços.
— “Nas minhas férias de fim de ano, fui para Santa Catarina e fiquei em Camboriú” e ponto final.
— Isso é verdade, eu fui mesmo.
— Bom, não vou mentir para você, esperava mais, achei que ficou um pouco curto...
— É que só fiquei um fim de semana, não deu para fazer muita coisa... – se justificou com carinha triste.
— Mas calma, isso não é o fim do mundo. Nessas duas linhas você já provou que pode ser uma de nossas alunas.
— Acha mesmo?
— Claro que sim. O título é original, o português está correto. Você falou que Camboriú fica em Santa Catarina, mostra que você entende de geografia. Na minha opinião você está aprovada.
— Oba!!
— Só fica faltando a matrícula, com a módica quantia de R$ 350,00, em 12X no cartão e acrescida na mensalidade de R$ 1.171,00.
— Isso não é problema, só tem uma coisa.
— Quer nota fiscal? Sem problema. Só não estranhe porque está no nome das Lavanderias Silva, o nosso alvará está demorando...
— Não é isso, é que ainda não sei o que fazer, qual curso.
— Não sabe o curso? – repetiu pensativo segurando o queixo. – Já sei! Você freqüenta as aulas normalmente e quando se formar recebe o diploma em branco!
— Em branco?
— Sim, em branco. Daí você põe o que achar melhor!
Comments:
terça-feira, fevereiro 10, 2004
Posted
4:30 AM
by André Melo
Sobre as coisas que me tiram da piscina
— É a fila para exame médico – respondeu a senhora bem na minha frente.
Eu já sabia, só tinha perguntado para ter certeza. Pelo jeito o exame médico para a piscina não vai ser tão rápido como imaginei. Tinham pelo menos umas treze pessoas à minha frente, treze. Só de imaginar que cada uma delas tinha que desamarrar o tênis, tirar a meia, a calça... isso não ia acabar nunca. O exame, em si, era rápido, só dava tempo de se constranger.
Fazer o que, o médico aparece poucas vezes na semana. E quando vem é assim, fica só uma hora e meia e depois vai embora. Tudo bem que ficar procurando pereba nas pessoas deve ser um serviço nojento, tipo “Onde está Wally, versão pus”.
Pois então, para quem achava que era só ter o trabalho de tirar e pôr a roupa, eu me enganei, ia perder um bom tempo nessa história. Se ao menos tivesse me precavido, trazido um livro, uma palavra cruzada. Olhando ao redor da fila, pensei em puxar assunto com alguém, falar sobre a demora do exame ou o preço dos combustíveis. Mas nem isso dava, só tinham crianças. Tudo bem, essa eu ia ter que agüentar sozinho.
Como o exame médico era no segundo andar e de lá dava pra ver quase todos ambientes, não demorou muito pra eu arranjar o que fazer. No andar de baixo, dava para enxergar a aula de capoeira. Aquela seqüência de rodopios, pé pra lá, pé pra cá, aquilo tudo não devia ser fácil. Eu até que gostaria de conseguir fazer aquelas coisas, só tenho medo de levantar a perna daquele jeito e acabar numa cadeira de rodas, inválido. Melhor eu me contentar com a piscina.
Mas à frente, já no segundo andar, as esteiras predominam. Umas oito delas parecem movimentar homens e mulheres. Alguns correm e outros andam, mas ninguém fica parado. Devem ser aquelas esteiras super-modernas, que diz quantos metros a pessoa já percorreu, quantas calorias perdeu e quantas bolhas já conseguiu fazer no pé. Tecnologia a serviço do homem.
Numa sala ao lado, o volume bem alto denuncia o que deve estar sendo feito, provavelmente alguma ginástica ou coisa do gênero. Como a porta está aberta, dá para enxergar a professora demonstrando aqueles passos, misturando ginástica com dança. A aula é animada, isso não dá para negar. As alunas devem se desdobrar para acompanhá-la. Dois minutos dessas aulas bastam para entender porque não há homens. Nós nunca conseguiríamos fazer aquelas coisas, falta coordenação. Eu, pessoalmente, já me contentei com dois pra lá, dois pra cá e não se fala mais nisso.
A fila parece ter andado um bom tanto, pena que ainda há umas cinco pessoas. A aula de ginástica acabou e as mulheres suadinhas abandonam a sala. Uma cena meiga. É, parece que não vai ter muita coisa para ficar assistindo nesse meio tempo. Olho para baixo e procuro o pessoal da capoeira, mas até eles parecem ter abandonado o barco. Mais à frente, só sobrou uma mulher na esteira. A mulher é uma máquina. Qualquer dia, quando precisarem abrir mais uma turbina em Itaipu, vou indicar essa daí, se faltar vazão no rio ela dá conta do recado.
A ginástica acabou, mas... êpa, que movimento é esse? Parece que teremos outra aula de ginástica. Ginástica? Estranhei por causa da música que começou a tocar, uma música diferente, que nada tem a ver com ginástica. Confuso, olhei ao redor e vi o cartaz que anunciava “Aulas de Dança do Ventre”.
Então era isso, como pude demorar tanto para perceber? Aquela música era árabe. Quando me dei conta, olhei imediatamente para porta aberta da sala. Lá dava para ver uma mulher linda mexendo no aparelho de som, devia ser a professora. Não usava aqueles trajes enormes, como na novela de tempos atrás, vestia apenas uma pequena saia vermelha por cima do conjuntinho preto de ginástica. Estava começando a Aula de Dança do Ventre.
Meu lugar na fila de exame já estava se aproximando e eu nem ligava, estava com os olhos vidrados na aula. De longe via a professora fazendo todo aqueles movimentos, mexendo a barriga e os quadris, algo assim fantástico. A porta se abriu e era a minha vez do exame para freqüentar a piscina. Rapidamente entrei e fiz o constrangimento corriqueiro. De posse do atestado de aptidão, desci até a secretaria onde devia entregá-lo.
— Piscina? – perguntou a secretária.
— Ainda tem vagas para Dança do Ventre?
Comments:
domingo, fevereiro 08, 2004
Posted
12:22 AM
by André Melo
Revelações da Operação Anaconda
o excelentíssimo senhor delegado Maranhão divulgando as novidades da polícia
Aos que acompanham periodicamente esse blogue, devem estar sentindo falta dos segredos e artimanhas do mundo do crime relatadas por mim. Andei sumido, é verdade, tudo em nome da segurança pública, ordem púlica e progresso público. Por fim, voltei para noticiar as novidades da Operação Anaconda.
De uns tempos pra cá, na impressa e na mídia em geral, ninguém começou a dar bola para os casos de delegacia. Quebradeira, linchamento, rebelião e coisa e tal, ninguém mais dava bola para essas coisas rotineiras, só se falava do Caso Anaconda. Foi daí que pensei: "Tenho que entrar nesse babado!"
Fazendo uma investigação independente, nossa delegacia mais uma vez chegou aos responsáveis pelo delito e tomou as medidas cabíveis, isto é, encheu de porrada.
Depois de muito bater em um suspeito e informante de uma locadora de fitas de vídeo, acabamos conseguindo uma prova que elucidou todo o caso.

Vendo esse vídeo, descobrimos que o problema era muito mais grave de imaginam. Contudo, acredito que não será difícil chegar até o réptil sangüinário, nosso grupo já sabe como esperar que o bicho apareça na multidão.
Comments:
terça-feira, fevereiro 03, 2004
Posted
9:08 AM
by André Melo
Um caso de surdez nasal
Fazia algum tempo que o Wanderlei andava sentindo aquela dor estranha no pé. Começou devagar, sem mais nem menos, diz ele que nem sabe como tudo começou. Só se deu conta quando recusou um convite para o futebol pela terceira vez, ele que nunca foi de perder uma partidinha, tinha alguma coisa de errado.
Notando sua indisposição, Marlene, sua esposa, perguntou ao marido o que era. Ele, com o pé esticado em cima da mesa, não sabia, só sabia que doía. Rapidamente, calçou a meia no pé e foi atrás do seu pai, que era sapateiro.
— Se ele sabe tudo sobre pisante, também deve entender de pé – se justificou.
Fazia sentido, pelo menos era o que a Marlene achava. Ela esperou o marido tirar o pé da mesa de jantar e ir embora, só daí tirou o pano de prato do avental.
— Pelo amor de Deus... – disse enquanto sacudia tentando tirar o cheiro de chulé que empestou o ambiente.
Não demorou muito Wanderlei chegou à casa do pai, que ficava bem ao lado da sua. Sem qualquer tipo de cerimônia, foi logo abrindo a porta e encontrando o velho fumando cachimbo e vendo TV.
— Pai, tô com um negócio estranho, uma coisa aqui no pé.
— humm... – murmurou sem dar muita importância.
— Uma dor, uma dor estranha no pé – disse já tirando o sapato fora.
— Sapato apertado, filho, espere mais uns dias que o couro amacia.
— Não é isso, pai. É alguma coisa aqui na sola do pé – explicou levantando o pezinho 42 na altura do rosto do velho. – Acho que tá machucado...
— Tá bom, tá bom, meu filho – se esquivou para trás quando sentiu o perfume. – Quem sabe disso aí é o Irineu. Eu só entendo de sapato, pé é com o Irineu.
Conselho recebido, Wanderlei vestiu a meia de novo e se arrancou de lá. Seu pai, em compensação, perdeu até a vontade de fumar o cachimbo por causa do odor de podridão.
— Machucado no pé? Machucado, que nada! Alguém tem que avisar ele que já necrosou!
Dando um tapa sonoro no balcão, ele chamou o moço do bar.
— O Irineu já apareceu por aí?
— Por que quer saber?
— Ele sempre vem pra cá comer aquelas coisas e queria saber se já apareceu hoje – explicou se referindo aos tira-gostos de tirar apetite.
— Eu não reparei se ele...
— É que eu tô com um negócio aqui no pé – disse interrompendo e exibindo o pé em cima do balcão.
— No fundo, no fundo!!
Wanderlei saiu em disparada até o fundo do bar, chegando lá encontrou o Irineu, que comia uma porção de azeitonas pretas que já estavam brancas de tão velhas.
— Seu Irineu, dá só uma olhada aqui! – pediu botando o pé cima do balcão.
— Mais pra perto... – disse mastigando.
— Dói bem aqui, quando eu piso – mostrou com o pé a um palmo de distância do nariz do Irineu.
— Humm... é isso aqui? – perguntou apontando. – É olho de peixe. Me passe o garfo, esse aí com azeitona na ponta, e mais uma faca que a gente tira agora – ordenou interessado.
— Espere, mas você não acha melhor...
— Vai doer no começo, coisa pouca – foi avisando enquanto cortava o mocotó do Wanderlei.
O Irineu foi rápido, em pouco tempo tinha solucionado o problema do olho de peixe, nem deu tempo da cerveja esquentar. O Wanderlei era só agradecimento vendo as pelancas do pé em cima do balcão. Como retribuição, deixou pago outra cerveja e mais uma porção de azeitonas brancas, ou melhor, pretas.
Antes de sair, agradeceu mais uma vez enquanto colocava a meia. Quanto ao cheiro, Irineu pareceu não sentir. Não dá pra dizer o mesmo dos outros clientes do bar, que abandonaram o local e até já pensavam em largar o vício da bebida. Sentindo uma flagrância no ar, Irineu finalmente se deu conta do cheiro e protestou em altos brandos:
— Queijo defumado? Por que não me avisaram que tem queijo defumado!
Comments:
|