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terça-feira, dezembro 30, 2003
Posted
11:31 AM
by André Melo
O Reveillon em casa
— Que bom que estamos todos reunidos numa data tão especial – comecei o discurso. – Afinal de contas, hoje é o último... – tentei continuar até que fui interrompido por uma alta gargalhada vindo da outra extremidade da mesa.
— Você está bêbado! – gritou uma moça completamente embriagada.
— Afinal de contas, hoje é o último dia do ano – continuei discursando.
— Ah é, você só pode estar brincando! – rebateu outro convidado causando uma gargalhada geral. – Pensava que era Dia de Ação de Graças!
Droga, é um saco ter que aturar esses convidados bêbados. Ainda mais quando a gente nem os conhece. Eu que fiquei o dia todo ensaiando esse discurso de ano novo. Cheguei até a comprar o livro “Faça discursos e conquiste as garotas”, por R$ 14,90.
— Por isso, neste ano que está nascendo, temos que renovar as novas... – continuei até ser interrompido novamente, desta vez por aquele som repugnante.
Fiquei alguns instantes sem saber se continuava ou não. No livro dizia para a gente não interromper um discurso, a menos que comecem a atirar objetos pontiagudos, porém, não falava nada sobre vomitar embaixo da mesa. Espero que não manche o tapete persa com etiqueta “Made in China” que comprei dos bolivianos na praça da Espanha.
— Acho que é uma boa hora de fazermos um brinde, não é gente? – tentei animar o pessoal pegando a garrafa de champagne de cima do armário.
Parece ter funcionado, os convidados se juntaram no brinde se acotovelando pelas poucas taças que tinham. Até a minha eu tive que dar depois de levar um soco no estômago. Enquanto eles se divertiam brindando, olhei por debaixo da mesa o estrago que tinham feito no tapete. “Ufa!”, não consegui me conter ao ver que tiveram a prudência de tirá-lo para receber tantos convidados. Teria sido um estrago irreparável para um tapete tão caro, elegante e cosmopolita. Deve ter sido idéia da mãe, precisava contar para ela como sua idéia nos tinha salvo. Engraçado falar dela agora, não me lembro de tê-la visto a noite toda.
—Vo-você é muito legal, cara. Legal mesmo... me dá um abraço!
— Sai fora! – disse empurrando o bêbado que impedia a passagem à cozinha.
Quando entrei, foi aquela decepção, era aquela bagunça e ela não estava lá. Só tinham duas pessoas, uma delas estava um pouco bêbada e a outra completamente. Os dois discutiam:
— Você o quê?
— Eu estava há um tempão procurando o banheiro e não achava. Como eu tava muito apertado, tive que pegar a primeira coisa que encontrei. Por sorte tinha uma garrafa vazia...
— E onde você botou essa garrafa?
— Sei lá... devo ter deixado em qualquer lugar... atrás da porta, em cima do armário...
“Em cima do armário”, ele disse “em cima do armário”? Mas não foi lá que eu achei a garrafa de champagne pro brinde? Não, não pode ser a mesma. Ela estava um pouco quente, isso é verdade, mas eu não seria tão tonto de propor um brinde com uma garrafa de xixi. Além do mais, ninguém iria beber um troço desses...
— Calma, meu bem – passou um casal por mim. – Champagne francesa é assim mesmo Um pouco amarga no começo, mas depois você se acostuma.
— Tem certeza, amor?
— Depois da terceira taça você começa a gostar...
— E esse bafo, é normal?
Pensei em alertá-los, mas pensando bem... Acho que chegou o momento de sair e dar uma boa arejada. Ainda faltam algumas horas para o show de fogos, mas vou sair mesmo assim. Aí dentro todos já estão de fogo. Fechando portão, notei a pintura nova da casa. Engraçado, nunca me avisaram que iam pintar.
— André! Finalmente você apareceu, onde é que você tinha se metido?
— Ué? Eu estava aqui em... – disse apontando.
— Vamos pra casa, senão cê perde a boca livre! – disse a minha irmã me pegando pelo braço.
Ela me puxou até em casa, não aquela casa, a verdadeira. Sim, porque eu tinha entrado na casa errada por engano. Foi mancada, eu sei. Não devia ter tomado umas e outras antes da virada. Desculpe tê-los botado nessa fria, pelo menos vocês não beberam nada estranho, certo? Bom, caso contrário fica a lição para 2004. Legal... enquanto isso, tome aqui um Hall’s. Não gosto muito do cheiro de mictório...
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sábado, dezembro 27, 2003
Posted
12:44 AM
by André Melo
Filminho besta
André Melo
Foi a ausência de algo para fazer que me levou a ver "Mensagem para você". Bom, pra falar a verdade, eu estava com um pouco de vontade de ver esse filme. Nem tão pouca vontade assim. Muita vontade, até. Vontade pra caramba.

Fazia um tempão que não via um filminho da Meg Ryan, aquelas comediazinha romântica água com açúcar. Além de tudo, esse "Mensagem para você", com o Tom Hanks, eu nunca tinha visto.
Começou o filme e me acomodei no sofá. Confesso que tinha até desacostumado de ver essas filmes com a Meg Ryan, talvez por isso algumas coisas pareceram tão gritantes. Como já esperava, um filme tão água com açúcar que devia ser desaconselhado para diabéticos. Ela dona de uma livraria de livros infantis (e eu que não sabia que crianças sabiam ler), ele dono de uma megastore (malvadão).
Isso sem falar dela lendo livros infantis e as crianças escutando admiradas (e eu que não sabia que as crianças sabiam escutar). Teve também outras cenas inacreditáveis, mas o grand finale foi o the end ao som de Somewhere over the rainbow.
Por outro lado, uma coisa deve ser dita, estou torcendo para que façam "Mensagem para você parte II".
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sexta-feira, dezembro 26, 2003
Posted
1:47 AM
by André Melo
Trabalho no Natal
André, o herege que não respeita datas sagradas
Embora a maioria das pessoas acredita que só quem trabalha é o Papai Noel, nesse dia 25 eu estava arrumando a mochila para bater o ponto no laboratório. Talvez, a coisa mais sem sentido disso tudo era que eu fui porque quis, já que não tinha essa obrigação.
Mas não foi uma simples decisão descabida, trabalhar em dias como esse é sempre muito mais fácil, o laboratória fica vazia, sem outros colegas ou renas pra lá e pra cá. Contudo, nem tudo deu certo. Aliás, tudo deu errado.
Ficou um lição para toda vida: Nunca mais vou trabalhar no Natal. Meus filhos vão ter que achar outro idiota pra se vestir de pijama vermelho com barba.
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terça-feira, dezembro 23, 2003
Posted
11:22 AM
by André Melo
A verdadeira história do Papai Noel
Nesta época do ano, as crianças são presença constante na televisão, sempre de carinhas singelas e olhares meigos à espera do Papai Noel. Para quem não tem muito contato com elas, corre-se o risco de acreditar na sinceridade e pureza dessas criaturinhas infantis. Por outro lado, quem já conviveu bastante tempo sabe que as crianças deste século XXI não têm muito de meigas e singelas como pregam os comerciais. As desgraçadinhas ficaram inteligentes e espertas, principalmente quando orientadas por um advogado.
— Papai Noel tem filho, tio?
— Que disse? – perguntei ao meu sobrinho.
— O Papai Noel é pai de quem? Ele tem filho?
Calmamente, estiquei o braço e apertei a bochecha do moleque.
— Gracinha do titio. Gra-ci-nha!
É o que faço quando não tenho resposta. Sei que pode parecer idiotice, mas geralmente funciona com mulheres e crianças. Desta vez, porém, ele continuava com o olhar de interrogação. Tentei mais uma vez, só que agora apertando mais.
— Gracinha do titio. Gra-ci-nha!!!
— Tá bom, tá bom... – disse se esquivando. – Vou perguntar pro tio Luiz...
Êpa, espere aí! Que história é essa de perguntar pro tio Luiz? Quem respondia as dúvidas sempre fui eu. Sempre fui eu o Oráculo da família. Ciência, astronomia, filosofia, física quântica... Desde “Qual o nome do capitão da Copa de 94?” até “Qual o nome da vizinha gostosona do 5o andar?”.
— Tudo bem, sobrinho. Sente-se aqui que vou contar tudo que queira – disse puxando uma cadeira. – Chegou a hora de você saber a verdadeira história do Papai Noel.
Imediatamente, o pequeno sobrinho se voltou e sentou a minha frente. Também pudera, depois de uma propaganda dessas.
— O Papai Noel tem filhos? Por que a gente nunca ouviu falar neles?
— Sabe, agora que você está maiorzinho, já chegou a hora de conhecer a verdadeira história do Papai Noel. O Papai Noel, como você já deve ter desconfiado, não tem filhos. Ele é estéril.
— Estéril? – repetiu sem entender. Provavelmente nem sabia o que era.
— Estéril. Apesar do saco grande, Papai Noel não pode ter filhos.
— Hããã...
— Tudo graças a um desentendimento que teve com Fliper.
— Fliper?
— Sim, ele levou um coice da sua rena, Fliper. A que vem depois de Rex.
— Então o Papai Noel não é pai e a Mamãe Noel não é mãe?
— Isso mesmo. É apenas um casal senil... Mas espere – tentei corrigir vendo que falei algo muito pesado. – Um casal senil, mas muito “gente boa”. Em vez gastar a aposentadoria no bingo, resolveram fazer a alegria da criançada.
Ufa, consegui contentar o moleque. Respondi todas as dúvidas natalinas da pequena criança. Deu para perceber que saiu satisfeito em ter suas perguntas respondidas. Também colaborei para a manutenção da imagem do Papai Noel, que ganhou o status de velhinho “gente boa”. Além disso, foi importante dar um alerta sobre o perigo do coice de renas e outros ruminantes. Afinal de contas, a família tem que se perpetuar.
— Só mais uma coisa, antes que me esqueça – disse antes que meu sobrinho fosse embora. – Já que estou lhe contando a verdadeira história do Papai Noel, tem uma pessoa que não pode ser esquecida.
Já que tornei a lenda do Natal ainda mais bela que a original, não seria de todo mal se puxasse a brasa para a minha sardinha.
— Como você deve ter percebido, Papai Noel não faz muita coisa além de ficar berrando “Ho Ho Ho!”. Na verdade, quem faz a maior parte do trabalho pesado não é ele, sim o Titio Noel.
— “Titio Noel”?
— Titio Noel. Por que tio é mais importante que pai, não é verdade sobrinho?
— É mesmo? Se tio é mais importante que pai, o senhor tem que me dar um presente mais caro que o meu pai. O que vai ser, tio?
— É... bem... gracinha do titio. Gra-ci-nha!
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terça-feira, dezembro 16, 2003
Posted
10:28 AM
by André Melo
Tarde trabalhosa para o Papai Noel
— Ho Ho Ho! – exclamou como só ele sabe fazer. – Tudo bem, criançada?
Os pequeninos foram ao delírio, todos loucos para falar com o Papai Noel. Haviam esperado por isso o ano todo, desde o natal passado, quando que ele deu uma bola de futebol em vez do Playstation. Tudo bem, ele também podia se enganar, eram tantas crianças, ele deve ter confundido Fulano com Sicrano...
No meio da algazarra, a confusão estava formada. Deu um trabalho danado para os anões ajudantes, eram eles que tinham que formar a fila para conter a garotada. Ainda não é Natal, mas tradicionalmente o Papai Noel aproveitava esse tempo que resta para saber quem se comportou bem e merece ganhar presentes.
— E você, garotinho, foi um bom menino esse ano? Ajudou a mamãe, o papai?
— Sim, sim!
— Então pode esperar, vai ganhar um presentão no fim do ano. Comprado em 3X sem juros no shopping... – tudo bem, ele também fazia seu comercial. Sabe como é, viver hoje em dia só de aposentadoria não há bom velhinho que consiga.
As crianças não paravam de chegar, quanto mais o Papai Noel atendia, mais iam chegando. Essa ia ser um tarde daquelas, por sorte ele não se incomodava e tinha paciência com todas elas.
— Papai Noel, essa barba é de verdade? Posso puxar? – perguntou a menininha de vestidinho.
— É sim, é de verdade. Pode puxar, mas só se for devagar.
— Papai Noel, esse nariz é de verdade? Posso puxar?
— Olha, menininha, não acho que seja uma boa idéia...
— E o olho, Papai Noel, um posso puxar o olho? Posso puxar seu olho, Papai Noel? Posso?
— Olha só, menininha, olha o que eu tenho pra você! – disse tirando da manga um pirulito, ele sempre usava um em caso de emergência.
Pois então, as coisas seguiam tranqüilas, méritos ao Papai Noel que sabia como conduzir a molecada. As coisas seguiriam assim até o fim do dia, porém, um estranho som de flauta era uma espécie de aviso. Ninguém percebeu de início, mas como ele foi se aproximando todos começaram a ouvir. Por fim, uma porta se abriu e ele apareceu.
“Ele? Ele quem?”, você deve estar se perguntando. Nem eu sei, era uma figura estranha, todo branco e com orelhas enormes. Dá para imaginar que todos, até mesmo o Papai Noel, olharam em sua direção tentando entender. Ele continuou tocando sua flauta doce e dançando no ritmo. Com uma das mãos, começou a jogar umas coisas brilhantes, parecendo bombons. Quando a música parou, ele, por fim, se virou e exclamou para todos:
— Feliz Páscoa!!
Foi só nesse momento que percebemos que aquela figura era um coelho, o Coelho da Páscoa!
A inquietação foi geral, as crianças, que antes só tinham olhos pro Papai Noel, agora tinham uma nova estrala. À medida que ele jogava os bombons, as crianças se acotovelavam para pegar. Sem entender nada estava o Papai Noel, totalmente largado no seu troninho vermelho.
Rapidamente, o sorriso amarelo deu lugar a uma expressão enérgica. Trocando olhares com os ajudantes, rapidamente ele comandou toda a operação. Com um único sinal, quatro anões de 2 metros de altura saíram dos fundos, cercaram o Coelho da Páscoa e o agarraram de uma forma pouco afetuosa. Nessa hora o Papai Noel começou a atirar pirulitos na multidão para distrair as criancinhas. Deu certo, elas nem notaram que os anões tinham levado o coelho para um beco.
A briga, como vocês podem imaginar, estava comendo solta. Gritos, xingamentos e barulhos estridentes poderiam ser ouvidos, mas nessa hora Papai Noel discursava distraindo a multidão. Em tom de despedida, o bom velhinho pegou seu suas coisas e já se conduzia para a saída do local. As crianças que o acompanhavam e nem notaram o som de dois tiros abafados pelo grito de “Ho Ho Ho!”.
Pois então, é claro que Papai Noel jamais faria uma coisa dessas, mas com a economia de mercado de hoje em dia até ele tem que lutar para manter seu público consumidor. É só nesse final de ano que o bom velhinho pode tirar o pé da lama, não é verdade? Bom, para mim não tem problema, mas é bom que ele se cuidar no mês de abril. Sabe como são esses personagens de datas comemorativas, quando resolvem pôr uma idéia na cabeça não há santo que tire...
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domingo, dezembro 14, 2003
Posted
12:49 AM
by André Melo
Não pode ser... mas é ela!
André Melo
Foi numa dessas bancas de jornais que acabei constatando o que muito gente já sabia. Vendo nas capas das revistas, um par de belas pernas femininos chamou a minha atenção. Na verdade nem foram tanto as pernas, sim o nome da dona das tais pernas: Luciana Vendramini.

"Luciana Vendramini?". peraí, esse não me é estranho, ele me remete recordações muito antigas, mas ainda sim me lembro. Demorei um bom tempo para puxar tudo na memória (e também no google).
Ela era só paquita quando aos dezessete anos posou para a Playboy e causou um furor danado. Isso já fazem 16 anos e só me lembro porque meu irmão mais velho era louco por ela. Ele chegou a comprar a revista e eu lembro de também ter gostado de ver a paquita sem roupa de paquita (sem roupa nenhuma, aliás).
Estavamos em 1987, êta anos 80... depois de sair na Playboy ela se casou com o maior rockstar tupiniquim da época, Paulo Ricardo. Sim, o Paulo Ricardo do RPM, "Rádio Pirata" e coisa e tal. Aquele que ficou bom moço e depois malvado de novo.
O mais estranho foi ela ter sumido, quando vi que ela ainda existia, lembrei imediatamente da beleza angelical da ex-paquita. "Deve ter 21 anos agora", pensei com meus botões. Que nada, está com 33 anos, se separou, deve ter empregada, um ou dois cachorros, filhos também. Isso sem falar em netos, talvez já tenha netos, a empregada já tenha netos, o cachorro já tenha pulado a cerca e feito netos também. Tudo uma pouca vergonha, esse mundo é uma pouca vergonha!!!
Quanto será que está custando a revista?
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quinta-feira, dezembro 11, 2003
Posted
2:21 AM
by André Melo
Agradecimentos por mais uma dádiva
fiel e devoto André Melo
Vendo as estatísticas do blog, um fato de chamou a atenção, o alto contigente de pessoas que acessaram no dia 21 de novembro. Intrigado, tentei descobrir o porquê dessa data. O teria ocorrido no dia 21 de novembro?
Foi somente depois de muito matutar que acabei desvendando o mistério. Vendo uma tabela de datas comemorativas dos católicos, descobri que dia 21 de novembro é o data em que se comemora o "Dia de São Demétrio".

Dentre todas as graças já proferidas por essa santidade, esta foi mais uma, quadruplicar em um dia o número de acessos que esse blog. Bom católico que sou, deixo aqui meus agradecimentos a São Demétrio e a todos os devotos do santo que navegam pela interne.
Amém!
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terça-feira, dezembro 09, 2003
Posted
8:52 AM
by André Melo
Espionando intimidades alheias
A descoberta do sexo oposto é sempre um assunto que dá pano pra manga, pois é o momento em que deixamos os brinquedos de lado e passamos a nos interessar em outras coisas. Não me refiro a aventuras picantes e sacanagens afins, falo do primeiro instante em que percebemos que as diferenças entre meninos e meninas vão além do cabelo com maria-chiquinha. Se antes a eterna competição “time das meninas contra time dos meninos” dita as regras, agora temos a curiosidade de conhecer os integrantes do outro lado, quem são, como vivem e se é verdade que fazem xixi sentadas. Um exemplo muito usado para demonstrar as inquietações desse período é o artifício que os garotos faziam para enxergar por debaixo da saia das colegas de classe, que consistia em colocar um espelho na ponta do sapato para enxergar territórios proibidos. Nesse aspecto, tenho que confessar, também gostava de espionar as intimidades alheias.
— André, podia me dar uma mãozinha aqui? – pediu uma colega da repartição que divide expediente.
— Sim, claro.
Por outro lado, muita coisa mudou desde que bastava um espelhinho no sapato para alcançar locais mais restritos. Na minha época, assim como hoje, os uniformes escolares das moças são idênticos ao dos rapazes, isto é, composto daquela calça cumprida pouco atraente. Saias, como as de antigamente, as colegiais não usam mais, ficaram de pernas escondidas para o alívio dos pais e tristeza dos garotos. É claro que hoje em dia as coisas estão muito mais maliciosas que naquela época, seria ingenuidade minha achar que as calças cumpridas solucionaram os problemas hormonais da juventude. Mas se as saias não eram usadas na minha época, como eu poderia invadir essas intimidades?
— Você podia levar essa pilha de papéis lá para o arquivo? Eu estou aqui ocupada com esses formulários...
— Tudo bem – respondi.
Estava dizendo como eu podia espionar as partes baixas já que não existiam mais saias e quaisquer partes a mostras naqueles uniformes padronizados. Estava aí um problema que tive que resolver ainda quando tinha meus 10, 11 anos. Pois então, mesmo com os tecidos recobrindo as intimidades das meninas, tinha uma que ficava a mostra. Quando aprendi o que fazer para conseguir enxergar, me desdobrava todo só para dar uma espiada. A intimidade que lutava tanto para ver estava no sorriso delas.
— Só uma coisa, André, não tente trazer todos os papéis de uma só vez que não vai dar certo. Vá devagar senão cai tudo!
— Calma, moça, parece que não me conhece... – acalmei a moça já com o plano todo pronto na cabeça. – Eficiência é o meu sobrenome!
Tudo bem, sei que é um pouco bobagem, um sorriso por mais bonito que seja ainda é só um sorriso. Além disso, existem muitas outras coisas para serem vistas em uma mulher além de uma boca cheia de dentes. Principalmente mais em baixo. Mas não se esqueçam que eu as meninas em questão tinham só uns 10 anos, sendo assim um sorriso estava de bom tamanho.
— Essa pilha cheia de papéis soltos? – perguntei desamarrando o cadarço do sapato e me preparando para carregar a papelada.
— Esses aí, são esses papéis mesmo – disse vendo a empreitada que estava fazendo. – Mas não tente levar tudo de uma vez! Isso não vai dar certo...
— Quieta, moça! Você está falando com um profissional, entendeu? Profissional.
Passei tanto tempo atrás do sorriso das meninas que cheguei até a pensar em direcionar a vida toda só para isso, me tornando dentista. Hoje, dou graças a Deus por não ter feito isso. Seria muito triste a cada sorriso ficar reparando na camada de tártaro, no leve desgaste no esmalte ou num clareamento bem indicado. Definitivamente não tenho vocação para isso.
Abracei a papelada que estava em cima da mesa e tentei me ajeitar, o que era difícil já carregava muito mais do que agüentava. Cheguei até a ouvir minha colega avisando sobre o cadarço desamarrado, mesmo assim segui em frente. Cambaleando entre as mesas, fui deixando um rastro de papéis pelo caminho até me certificar que estava longe do alcance de visão dela. Quando chegou o momento, usei toda a minha veia teatral para representar um tropeço, jogando toda a papelada no chão. Com certeza não ganharia um Oscar, mesmo assim foi o suficiente para arrancar altas gargalhadas.
— Quer uma ajuda? – ela disse vindo em minha direção.
— Não precisa – respondi vendo seu sorriso de orelha a orelha. – Você acabou de me ajudar.
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