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terça-feira, setembro 30, 2003
Posted
8:08 AM
by André Melo
Agindo conforme as últimas tendências
Subi animado os degraus que levavam até o apartamento do Alessandro, queria que ele fosse o primeiro a ler o texto. Toquei a campainha e ele me convidou a entrar com a gentileza de sempre. Conversa vai, conversa vem e ele queria saber o motivo de tão agradável visita.
— É que estou escrevendo um texto fantástico! Crime, aventura, suspense... e tudo seguindo as últimas tendências!
— “Últimas tendências”...
— Sim, as últimas tendências!
— Tá bom, mas o que você chama de “últimas tendências”?
— Cê tá por fora mesmo, hein... falo da maneira que estão contando história hoje em dia, tudo de trás pra frente.
— História de trás pra frente?
— Sim, no cinema agora é assim, a história começa pelo fim e termina no começo.
— Tudo bem, no cinema ainda vá lá, mas fazer uma história que começa pelo fim fica meio sem pé nem cabeça...
— Espera aí, antes de falar qualquer coisa eu quero que você leia. Ainda não terminei de escrever, mas leia assim mesmo.
Entreguei-lhe a folha com o esboço e ele começou a ler.
“Cansado pelo esforço, limpei o suor da testa com a gola da camiseta. Não sabia que o corpo daquele desgraçado pesava tanto”.
— É um texto de terror? Não sabia que tinha essas idéias doentias.
— Um texto de terror de trás pra frente!
“Tentou carregá-lo nos braços como fazem com as noivas, porém, isso foi só no início. Resolveu então deitar o sujeito no chão e arrasta-lo até o banheiro. Como não sabia onde deixar o corpo, ele ia ficar lá mesmo, pelo menos até a começar a cheirar mal.”
— Além de tudo assassino! Poxa, estou começando a ficar com medo de ler o resto!
— Tá bom, tá bom, chega de piadinhas. Fique quieto e leia o resto.
“Aos poucos foi sentido que a resistência ia diminuindo, se antes ele lutava desesperado agora se curvava sem ar. Não demorou muito para que suas pernas se entortassem como se estivesse bêbado e caísse desajeitado. Ainda assim eu puxava com força para terminar de sufocá-lo. Agora quero ver ele caçoar do meu jeito de escrever”.
— Certo, um assassinato. Agora me diga onde é que está a graça?
— Como assim?
— É um texto de trás pra frente seguindo as “últimas tendências”, tudo bem, mas quando vem a parte engraçada?
— Leia isso aí e depois a gente discute!
“Usando o agasalho de lã como se fosse uma corda, enrolei rapidamente no seu pescoço me aproveitando que estava de costas distraído. Ele ainda tentou escapar se desvencilhando das mangas do agasalho, mas puxava com tanta força que não deixei que escapasse. Era agora ou nunca”.
— O cara asfixiou o outro, enforcando. Mas qual a graça disso tudo?
— Você não está entendendo, o texto segue as últimas tendências...
— Que mané história de “últimas tendências”?! Estou dizendo que essa história não tem graça nenhuma!
— É que não é para ter graça, só que segue...
— Já sei, já sei, “segue as últimas tendências”. Pelo amor de Deus, não acredito que você está falando sério, esse texto não tem a menor graça! Aliás, faz um tempão que você não escreve algo engraçado. Não queria te falar, mas por aqui todos comentam que seus textos estão muito ruins.
— É verdade?
— Tô falando sério, estão muito sem graça. Já sei, aposto textos ruins são “as últimas tendências”. Para ser moderno você escreve textos ruins, ah ah ah!!
Aquilo foi a gota d’água, agüentei tudo que podia, mas quando ele começou a rir perdi a razão. Dei um soco na mesa e me levantei da cadeira de forma enérgica. Como ele tinha ido à cozinha, não notou meu estado enfurecido. Com um movimento brusco, peguei com as duas mãos o agasalho de lã preso na cintura e fui em sua direção.
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terça-feira, setembro 23, 2003
Posted
10:15 AM
by André Melo
Ossos do ofício
Para os que não sabem, tempos atrás a tranqüilidade da minha vida teve uma grande reviravolta: passei a dividir o teto com um cachorro. Calma lá, não me refiro ao meu cunhado ter vindo morar aqui, falo de cachorro no sentido mais canino da palavra. Um filhote de quatro patas veio dividir as atenções em casa. Confesso a você que essa história não teve um começo muito fácil, na minha cabeça a hipótese de ter um cachorro não combina com apartamento, ainda mais um animal daquele porte, feroz, perigoso e com dentes afiados. Em pouco tempo me explicaram que essas qualidades não se aplicam a poodle toy, mesmo assim demorou até que me acostumasse à idéia.
Logo no primeiro dia percebi que a presença do bichano mudaria a minha rotina. Sujeira, bagunça, imundice e porquice, tudo isso continuei fazendo, a diferença é que teria que dividir o território. Depois de muito tentar, percebi que o quadrúpede nunca aprenderia os hábitos de higiene. Talvez conseguisse ensiná-lo a fazer as necessidades no vaso sanitário, puxar a descarga, porém, vi que ia ser muito difícil. Isso sem falar em lavar as mãos, provavelmente ele sentiria dificuldade em abrir a torneira com as patas.
Uma coisa era inegável, eu não sabia nada sobre cachorros, sequer os filmes da Lessie eu tinha assistido. Cachorros, para mim, só faziam “au au” e enterravam ossos, só isso eu sabia. Sendo assim, logo que conheci o poodle toy fiquei aliviado, ele também fazia “au au”. Sobre enterrar ossos, porém, comecei a ficar preocupado, não se esqueçam que moro em apartamento. Imaginei ele cruzado a sala como um osso na boca e começando a cavar enquanto eu assistia televisão. Como sou distraído não ia reparar no bichano cavando e só iria ser interrompido pelo interfone. O vizinho reclamando do cachorro que tinha cavado tanto que foi parar lá, no apartamento de baixo, com aquele osso na boca. Essa cachorrada não era fácil.
Aos poucos fui me habituando com a presença e até gostando da nossa relação, a alegria quando nos recebia, a maneira que ficava fuçando a sacola do supermercado, o jeito de morder até encontrar a travessa de carnes, a velocidade que corria com a travessa na boca e a violência que nos atacava quando tentávamos pegá-la de volta. Tudo bem que às vezes a gente se irritava, mas era impossível ficar nervoso por muito tempo quando o encontrávamos todo quietinho se esbaldado com um osso, mesmo quando esse osso era da perna de mamãe.
Mas foi nesse início de primavera que a minha relação com ele ganhou um novo sentido que nem sei explicar. Nesses dias ensolarados e de céu aberto, tenho descoberto que não há nada mais divertido do que passear na companhia dele. Enquanto todas famílias se reúnem nos parques, crianças e adultos, pais e filhos, eu e ele também estamos juntos passeando como bons companheiros. Nesse momento, passo toda a minha experiência de pessoa sabida e mais velha para o pequeno filhote. “Não puxe a calça da senhora, isso é muito feio. Devemos respeitar as pessoas mais velhas, viu? Por outro lado, essa moça de vermelho é bem mais jovem, pode puxar a saia dela sem problemas. Anda logo, puxe!”.
Nessas visitas ao parque, nosso trabalho em equipe se aprimorou ainda mais, ele faz o que eu peço em troca de ossos. Nunca vi criatura mais sedenta por ossos, faz qualquer por eles. Juntos nós formamos uma espécie de time, uma dupla dinâmica, assim como Batman e Robin, Lennon e McCartney, Sadam Hussen e George Bush. Muito mais que isso, foi com ele que comecei a enxergar toda beleza e magia que existe...
— Em ser pai! – me interrompeu uma amiga ao ouvir a história.
— Ser pai?
— Foi com o seu cachorro que você percebeu toda a beleza e magia que existe em ser pai!
— Ser pai? Bom, pode até ser isso... mas eu estava me referindo a beleza e magia que existe por trás de um osso.
— Osso?!
— Sim, osso. Outro dia, inclusive, a gente chegou a brigar por causa de um osso de costela de porco. Tive até que dar umas mordidas na pata para ele soltar...
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terça-feira, setembro 16, 2003
Posted
10:20 AM
by André Melo
Deus no céu e churros na terra
Uma coisa deve ser dita: ele não teve culpa de nada, não mesmo. Foi tudo culpa desses vendedores, onde já se viu, não respeitam nem o teto sagrado. Agora o menino vai ter que enfrentar a bronca e a broca do dentista. Coitado do moleque, o médico da boca disse que ele está com mais cáries do que dentes. Vai dar o maior trabalho pra arrumar, isso sem falar do dinheiro, quase o preço de uma dentadura nova. O pai veio logo botando a culpa no rapaz, não percebeu que foi tudo coisa do demo.
Vamos então recapitular a história para vocês entenderem melhor.
Domingo era um dia sagrado, Vó Manuela sempre ia para a igreja assistir o culto do padre Augusto. Sabia todos os cânticos de cor, do Aleluia ao Espírito Santo, era só o padre começar que ela seguia firme e sem gaguejar. Diziam até que se o padre faltasse ela podia assumir a batina e dar seqüência à solenidade. Para completar a ficha impecável da carola, ela era uma pontual e generosa dizimista. Daquelas que deixavam a sacolinha mais robusta e pesada, com a graça de Deus.
Mas para a tristeza do padre e das beatas, suas freqüentes idas à igreja tiveram que ser reduzidas abruptamente. Foi numa manhã dessas que sentiu aquela pontada na coluna, parecia que tinham fisgado um robalo nas costas da velha. Muito atordoada, fez a maior gritaria até que a levaram ao doutor Castilho, médico da família.
Esse doutor era mesmo muito sabido, daqueles que só não sabem mais por falta de espaço. Faz uns vinte e poucos anos que ele é o doutor da família, sujeito competente. Vó Manuela conta que foi só entrar no consultório para já se sentir melhor, de tão competente que é o doutor. Mesmo se sentindo melhor ela resolveu seguir todos os protocolos, isto é, tirar a pressão, mostrar a língua, falar 33 e essas coisas de médico. Quando achou que tinha resolvido o causo, doutor Castilho contou o que se passava. O diagnostico foi preciso, mesmo sem fazer exames o doutor conhecia problemas assim de longa data, quando bateu o olho na coluna disse sem hesitar: “espinhela caída”.
— Será o Benedito! – exclamou com as mãos na bochecha.
Doutor Castilho ainda tentou acalmar Vó Manuela dizendo que não era o fim do mundo, só teria que se cuidar a partir de agora. Carregar peso nunca mais, ainda mais aquelas imagens pesadas de santo que ela gostava de levar pra cima e pra baixo. Além disso, ele aconselhou o máximo de descanso. Até a missa das 8h manhã ela teve que largar para descansar mais tempo, só iria agora na das 11h. Poxa vida, o culto das 11h não era do padre Augusto, foi pena ela ter que largar.
Antes que fosse tomada pela desanimo, porém, ela conseguiu pensar numa solução. Se não poderia estar de corpo presente, chamaria alguém para que representasse a família e recebesse a graça em nome de todos. Mais importante ainda seria ter alguém lá para pagar o dízimo que já tinha virado tradição na família Passos Andrade. Como era o neto mais avoado, achou que seria a melhor maneira de botar o moleque nos eixos. Sendo assim, o pequeno Teobaldo foi escolhido para essa tarefa.
Botando o terno bem cuidado, ficou tão arrumado que até fazia esquecer do cheiro de naftalina. Com as mãozinhas abanando, a família se despediu de Teobaldo orgulhosa. No entanto, toda a alegria daquela manhã foi arruinada logo depois, quando ele chegou na igreja.
“É por detrás de figuras bonitas que o demo se esconde”, já dizia o padre Augusto. E nisso ele não errou, só que foi uma máquina de churros que tirou Teobaldo do culto naquele dia. Posicionada com cuidado pelas próprias mãos do tinhoso, a máquina de churros foi colocada de tal forma que ficava bem visível quando se olhava de dentro pra fora. Não foram uma nem duas vezes que o coitado do menino tentou desviar o olhar e fugir da tentação, no final, porém, sucumbiu ao desejo carnal do churro. Só uma vez até dava pra perdoar, contudo essa cena se repetiu praticamente todo o domingo, quando gastava todo dinheiro do dízimo com guloseima. Foi o triunfo do satanás e do churro de doce de leite.
Ainda bem que Deus é pai e não padrasto, logo logo ele tratou de ajeitar as coisas. De tanto abusar dos doces do cramulião, o Senhor transformou toda essa porcalhada em cáries, cáries salvadoras. Era tanta dor de dente que fez Teobaldo parar de gastar tudo em churros e voltar à missa. Seria uma bela história com final feliz, mas essas batalhas não se vencem da noite pro dia. Realmente o garoto parou de comer churros, graças a Deus, porém, quando ia ao dentista, Teobaldo passou por uma sorveteria nova na cidade. Pois é, não é que o coitadinho novamente foi vítima e deixou todo dinheiro do dentista em troca de uns sorvetes de pistache? Pistache do tinhoso!
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terça-feira, setembro 09, 2003
Posted
7:56 AM
by André Melo
Emprego absurdo, uma insanidade
Com uma caneta vermelha fazia um grande círculo naquele anúncio dos classificados, uma rotina no domingo de um desempregado. Fechei o jornal tatuado de vermelho pensando na peregrinação que faria no dia seguinte: primeiro a empresa de refrigerantes, depois a construtora, em seguida a confecção feminina, a rede de farmácia e por último esse anuncio estranho. Toda semana era assim, tanto procura e nada de emprego. Mas dessa vez eu tinha fé que ia ser diferente.
Realmente, diferente foi mesmo, dessa vez nem cheguei à entrevista. Quatro desses círculos nos classificados foram em vão, agora só restava aquele anúncio estranho. Estranho ou não, aquela seria a minha última chance. Garanto que você está pensando “O tinha de tão estranho?”, veja e tira suas próprias conclusões.
“Empresa de Contabilidade abre vagas para Figurante. Rua Alencar Soares, 195”
Como era contador formado, tratei logo de visitar a tal empresa mesmo não conhecendo essa função de “figurante”. Chegando lá, rapidamente fui encaminhado para a entrevista, onde reparei que só estavam interessados no meu aspecto externo.
— Pode começar hoje mesmo? – foi a primeira pergunta.
— Sim? – respondi sem entender.
— Ótimo, o emprego é seu. Entre na sala no final do corredor e faça figuração.
— Uau! – não pude me conter de alegria, nunca foi tão fácil conseguir um emprego! Só tinha um problema, não tinha a menor idéia do que era fazer figuração em contabilidade.
— Como não sabe? – estranhou o meu novo patrão.
— Durante os meus cinco anos da faculdade nunca ouvi falar em figuração em contabilidade – justifiquei meu desconhecimento.
— É tanto faculdade ruim hoje em dia, nunca vi... Não tem problema, preste atenção que vou te explicar – disse num tom de professor. – Pegue algumas folhas na tua mesa e vá até o outro lado da sala para grampeá-las. Chegando lá, comente alguma coisa com o colega que estiver sentado apontando para elas. Volte para sua mesa e mexa na máquina de calcular como se estivesse fazendo uma conta qualquer. Em seguida, vá até o arquivo e pegue uns papéis quaisquer e comente alguma coisa com um colega. De vez em quando tome um cafezinho e reclame um pouco. Fazendo tudo isso repetidamente, quando for 18h pode ir para casa.
— Está dizendo que vou ficar oito horas seguidas fingindo estar trabalhando?
— Claro que não.
— Ah bom – disse aliviado.
— Não são oito horas seguidas, 12h tem pausa para o almoço.
Ainda confuso, fui conduzido até aquele que seria o meu local de trabalho. Logo que entrei reparei num monte de pessoas engravatadas correndo pra lá e pra cá. Reparando mais atentamente, notei que estavam fazendo exatamente o que o chefe havia me explicado, isto é, grampeando folhas, fazendo contas, consultando o arquivo e discutindo entre si. Quando me virei para perguntar algo, vi que o chefe já tinha saído da sala. Sendo assim, tratei de começar o meu serviço, por mais maluco que fosse.
Como me foi explicado, peguei algumas folhas em branco e fui até o outro lado grampeá-las (sendo que havia grampeador na minha mesa). Depois disso, apontei para as folhas como se perguntasse alguma coisa para o colega, ele, por sua vez, fingiu responder. Logo depois, voltei para a minha mesa e comecei a mexer na calculadora como se fizesse alguma conta. Nunca me senti tão ridículo. A quem estava tentando enganar com aquela encenação boba? Não pude entender como aquelas pessoas podiam compactuar com...
— Isso é um absurdo, vocês estão me ouvindo? – alguém gritou e interrompeu meus pensamentos. – Uma insanidade!!
No meio do tumulto, reparo em alguém atirando a pasta contra o chão e sai da sala batendo a porta. Imediatamente me identifiquei com aquele sujeito, ele também devia estar revoltado com a estupidez daquele serviço todo. Então havia alguém que pensava como eu, agora eu não estava só! Nessa hora percebi que aquele não era o meu lugar, larguei toda a papelada na mesa e fui atrás do sujeito. Caminhando a passos largos, só fui alcançá-lo no outro lado da rua.
— Concordo com você, isso é um absurdo, uma loucura – fui logo mostrar meu apoio.
— Obrigado, só fiz o meu trabalho. Agora com licença, estou atrasado – disse com uma voz serena muito diferente de há pouco.
Acompanhando-o até um bar, ele foi se dirigindo ao caixa. Puxando assunto eu lhe perguntei quando ele tinha entrado na função de figurante.
— Figurante eu? Não, você deve estar enganado, sou da profissão Revoltado.
“Profissão Revoltado”? Agora sim é que eu não estava entendendo mais nada! Como poderia haver uma profissão...
— Isso é um absurdo, vocês estão me ouvindo? – mais uma vez os gritos do meu colega me interrompem. – Uma insanidade!!
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