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terça-feira, agosto 26, 2003
Posted
9:36 AM
by André Melo
Uma gracinha de criança
Pegar ônibus no sábado é no mínimo curioso. Se durante a semana o clima sério e formal denuncia mais um dia de trabalho, no final de semana a coisa é bem diferente. Não que no sábado as pessoas fiquem trocando sorrisos e rindo a toa como num comercial de creme dental, mas ao invés de trabalhadores e funcionários são as crianças que chamam atenção. Os pais delas, inclusive, geralmente permanecem de rostos sérios como antes, porém as crianças é que dão a tônica do dia.
Digo isso porque só há bem pouco tempo me dei conta dessa mudança dentro dos ônibus no fim de semana. Confesso a você que nunca fui do tipo que repara muito em crianças, ao menos que estejam com uma babá impossível de não reparar. Pena que essas aí não costumam pegar ônibus.
A porta do Inter 2 se abre fazendo um baita estrondo, hora de entrar. Como estamos no sábado, logo reparo no batalhão de crianças assentadas por toda parte. Mas nada de babás, já esperava por isso. Pelo visto eram as famílias curitibanas indo dar uma volta na cidade. Ir para o parque, talvez, jogar bola ou comer algodão doce. Isso sem falar das traquinagens de criança, tentar chutar a pomba e acertar na canela do papai. Era mais um sábado desses tantos.
Conseguindo um lugar no ônibus quase cheio, uma coisa me causou estranheza naquele começo de viagem, o silêncio que fazia lá dentro. Olhando para os lados, percebi que todos os passageiros, pais e filhos, escutavam atentamente uma das crianças, a única que falava em voz alta.
— Paiê, por que as pessoas estão na rua?
Eram aquelas típicas perguntas de criança pequena, que conquistava todo mundo pela ingenuidade e inocência. As pessoas ouviam atentamente as palavras do menininho como cristãos no sermão da montanha. A cada intervale as mulheres sem filho olhavam para os maridos com cara de “Eu quero a minha Caloi”.
— Paiê, por que as pessoas estão esperando o ônibus?
Do lado da platéia, as pessoas prendiam o riso enquanto se deliciavam com o menino. Até eu me peguei sorrindo por causa do pimpolho, e isso ele conseguiu sem o advento da babá. Juntamente com os outros eu estava ansioso para saber qual seria a próxima pergunta de cunho filosófico abelhudo. Além do mais...
— Paiê, e as pessoas estão andando por quê? Por quê, paiê?
Tudo bem, tá certo que o menino era uma gracinha, mas acho que esse falatório estava começando a...
— Paiê, e elas estão saindo de casa por quê? Por quê, paiê?
Começando a encher a paciência. Será que não daria para fazer silêncio um pouquinho?
— Paiê, e elas vão passear por quê? Passear por quê?
Aquela droga daquele moleque não ficava quieto e eu já estava me enfezando. Dando uma olhada ao redor percebi que não era o único, todos os passageiros que antes estavam adorando o menino agora estavam detestando aquela praga. Passaram-se mais uns cinco minutos de “paiê” daqui, “por quê” de lá e finalmente o rapazinho desceu do ônibus. Deve ter ido para o parque ou coisa parecida. Coitada das pombas e dos cisnes que teriam que agüentar a peste. O silêncio se estabeleceu por um instante, mas todos estavam loucos para comemorar a saída daquele menininho chato. Foi só o primeiro disparar para todos desabafarem o alívio.
— Mas que menininho mais chato!
— Poxa vida, achei que não ia mais ficar quieto...
— Moleque fala mais que locutor esportivo!
— Parecia que engoliu um gravador.
— “Paiê”, “Paiê”... tenha a santa paciência!
— Se tem um filho chato assim por que levar pro ônibus?
— Então deixa a criança em casa.
— Em casa e amarrado!
A discussão corria solta e todo mundo falando soltando os cachorros no menininho. Como não podia de ser eu também fiz o meu protesto, embora acho que ninguém tenha ouvido.
— ... se ainda tivesse uma babá!
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domingo, agosto 24, 2003
Posted
4:54 PM
by André Melo
Homens de Barraca Armada by Clédisson Craveira
capítulo 28
O amor é uma coisa linda, linda pra caralho. No capítulo de hoje, veremos o nascer de novos romances. Tom Hanks, por exemplo, se cansou de dar provas de amor e hematomas para a professorinha e resolve catar novos brotos. Daí veio uma surpresa interessante, o cara descolou uma gostosa (digo, de beleza interior, é claro). Engraçado como eles combinam, ele bate na mulher e ela treina uma surra nos coroas.
Depois de uma noite de amor, regada a muita sacanagem e tchaca-tchaca, Tom Hanks diz que vai até a padaria comprar leitinha pra fazer café na cama da moça. Já na rua, Tom desvia o caminho e em vez de ir para a padaria dá uma passadinha no boteco. Chegando lá, chama todos os colegas de birita para uma revelação do caralho:
— Sabe aquela gostosinha que faz voodu dos avós? Aquela revoltada que vive querendo esconder o cartão do INSS dos velhos? A menina que vive tentando empurrar o vovô do Pão de Açúcar? Sabe, sabe??
— Fala logo!
— Tô traçando!!
E do outro lado da cidade, outro acontecimento romântico acontece nessa novela do caralho.
No hospital, o doutor César, vulgo Comedor, faz uma cirurgia de vida ou morte que mantêm todos ocupados.
— Bisturi... pinça... saca-rolha... saca-rolha... SACA-ROLHA, porra!
— Saca-rolha? Nunca ouvi falar que se usa uma coisa dessas na mesa de cirurgia...
— Então vai lá buscar, mulher inútil!
Depois que o doutor César manda a doutora Pitanga pegar o saca-rolha, ele olha pros lados para ver se está sozinho. Quando se certifica que está só, começa a dar uns tapinhas para acordar o paciente do coma.
— Acorda, acorda... ACORDA, FILHA DA PUTA!
— hãã... – responde o paciente todo grogue.
— Tá vendo essa doutorinha gostosinha? To traçando!!
No colégio onde ficam as gatinhas, o Fred, moleque fica de barraca armada pela professora, conversa com um amigo e faz revelações do caralho.
— Sabe aquela professorinha de cabelo curtinho?
— Qual?
— Aquela que sempre vem com olho roxo e cara inchada...
— Ah sei, o que tem ela?
— É que eu e ela...
— Peraí... não me diga que você e ela estão... estão...
— Isso mesmo.
— Você está traçando a fessora? É isso? Você está traçando a fessora??
— Traçando? Claro que não, onde já se viu?
— Ah bom, que susto!
— Mas que falta pouco, isso falta...
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4:52 PM
by André Melo
Problemas técnicos, desculpe...
André Luiz fala todo sem jeito
Pessoal, só vou dizer uma coisa sobre esse intervalo nas atualizações nesse blog: deu pau.
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terça-feira, agosto 05, 2003
Posted
10:51 AM
by André Melo
Na febre dos esportes radicais
Já estão se tornando rotineiras as visitas dominicais de Clédisson Craveira. Não sei ao certo a data de quando começou, só me lembro de quando ele apareceu aqui em casa no meio de uma corrida de Fórmula 1.
— Não sabia que gostava de Fórmula 1, Clédisson. Clédisson? - perguntei ao notar seu sumiço repentino.
— E não gosto – respondeu de repente saindo da cozinha e segurando um iogurte da geladeira.
Como não sou do tipo que expulsa amigos de casa (pelo menos não sem ajuda da polícia), convidei-o para se sentar no sofá e assistir a corrida. Embora eu estivesse prestando atenção nos carros, logo notei que da formula 1 ele gostava mais dos acidentes e só torcia para ver uma fratura exposta. O tempo passou e não demorou muito a corrida já tinha acabado. Nós dois, paralisados no sofá, acabamos esticando e vendo um desses programas esportivos. Daqueles que falam de todo tipo de esportes.
— Que esporte mais engraçado é esse?
— Qual?
— Esse aí que está passando! – ele insistiu apontando para a TV.
— O quê? Esse aí? – perguntei incrédulo até perceber que ele estava falando sério. – As pessoas chamam de “vôlei”.
— “Vôlei” – repetiu como criança que aprende uma palavra nova.
Como você deve ter percebido, era uma daquelas típicas manhãs de domingo, quando não há muita coisa para fazer além de ver corridas de fórmula 1 e os noticiários esportivos. Contudo, aquele não seria um domingo qualquer, foi naquele dia que vimos pela primeira vez a aparição de Dani Monteiro, a belíssima apresentadora de um quadro sobre esportes radicais. Foi graças a ela que as manhãs de domingo ganharam uma nova atração, os esportes radicais ganharam novos aspirantes, as visitas de Clédisson Craveira ganharam um novo motivo e, conseqüentemente, os iogurtes se tornaram mais escassos.
— Já acabou esse blablablá desses esportes chatos? – perguntou o Clédisson logo ao entrar em casa querendo saber se a musa Dani Monteiro já tinha aparecido.
— Espera... – disse na expectativa de que finalmente apareceria o quadro sobre esportes radicais.
Foi só falar nele e pimba, não deu outra! Rapidamente me aconcheguei no sofá para ver com cuidado. O Clédisson veio logo depois todo afobado, tanto que quase derrubou o iogurte no chão. Vidrados como de costume, assistíamos com atenção e em silêncio. Naquele dia ela iria saltar de buggle jump.
— Buggle jump? Poxa, que sem graça! – Clédisson disse frustrado. — Bem que ela podia fazer algo do tipo camiseta molhada.
— Concordo com você, Clédisson. Mas não se esqueça que o quadro é sobre esportes radicais, só esportes radicais.
— Sim, mas mesmo assim podia ser tipo buggle jump com camiseta molhada!
Até que o Clédisson diz às vezes coisas interessantes. Podia ser difícil de imaginar, mas buggle jump com camiseta molhado é uma coisa que gostaria de ver qualquer dia desses...
Como sempre acontece nesse quadro, a Dani Monteiro convidou alguém para participar do tal esporte radical. Dessa vez ela chamou um atorzinho desses de novela para saltar de buggle jump com ela.
— Eu iria! – falou o Clédisson no ato.
— Eu também! – disse para não ficar atrás.
O programa continuou só que de uma forma pouco interessante para nós. O ator bonitão toda hora vinha com galanteios para a moça. Tudo era motivo para uma troca de abraços, desde medo de saltar a cadarço desamarrado. Em resumo, ele fazia de tudo que nós faríamos no lugar dele. Mais um motivo para que causasse protestos na audiência. No final das contas, nós dois nos sentimos descartados naquele domingo. O programa acabou e nos despedimos sem muito entusiasmo. Qual seria a próxima corrida de fórmula 1? Ou o próximo esporte radical da Dani Monteiro? Ahn, quem se importa...
Naquele mesmo dia, já que estava chateado, resolvi fazer uma loucura, meu esporte radical
predileto. Mesmo com o saldo no vermelho, respirei fundo, fui até o caixa eletrônico, contei até três e saquei R$ 70,00 da conta. Detalhe: saquei tudo em nota de R$ 5,00!
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